É impossível esconder uma cicatriz?
- agenciabcnnewsrio
- 22 de ago. de 2022
- 3 min de leitura
Durante os últimos tempos, o local onde eu vivia se tornou algo diferente daquilo que sempre imaginei.
Quando criança, sem ter uma quadra ao nosso favor, adorava sair com meus amigos e jogar bola na rua. Fazíamos das sacolas de lixos, latões e os muros dos vizinhos de trave, claro que usando alguns dos nossos chinelos como travessão, encostando-os no muro.
Uma vez, uma das nossas vizinhas de rua, chamada dona Conceição, havia acabado de pintar seu muro da cor verde abacate, uma das cores de seu gosto. Isso percebemos pela vestimenta da mesma cor que ela sempre usava ao ir na rua.
Aquele muro foi por muito tempo em nossa vida parte do nosso campo de futebol imaginário. Adorávamos jogar lá, não porque sempre estava pintado, mas sim por ser grande e caber direitinho nossas sandálias como travessão.
Com tantos chutes no muro, alguns errados, alguns acertando até mesmo a telha da dona Fátima (kkk), as marcas da bola ficavam estampadas na parede, sinalizando que ali, algumas crianças se divertiram. Dona Conceição nunca reclamava.
É claro que jogar bola em um muro recém pintado era uma traquinagem. Mas éramos crianças e, na minha época, ainda nos divertíamos na rua até tarde da noite sem fazer uso de tecnologias. No mês seguinte, o muro estava lá, pintado novamente, esperando a gente ir, mais uma vez, deixar nosso registro futebolístico.
Mas um coisa que era certa de nos intrigar eram as marcas, quase que perfeitas, da circunferência da bola no muro. Tinta alguma do seu Jorge - senhor que pintava os muros da rua - conseguia apagar aquelas marcas da bola cravada no muro sob qualquer tinta.
Alguns anos depois, Dona Conceição faleceu e com ela, nossa vontade de jogar bola naquele muro. Ela sempre nos dava água e até mesmo suco de uva encharcada de açúcar com formigas, toda vez que terminávamos de marcar seu muro. Em troca, toda vez que avistávamos dona Conceição subindo o morro com sacolas de mercado, a gente corria para ajuda-lá a subir até sua casa.
Essa foto abaixo foi tirada na “Rua Sete de Setembro” que fica na comunidade da Alvorada, Complexo do Alemão. Nos últimos anos, esse local foi consagrado como “Síria” do conjunto de favelas. Dado esse nome ao local, por conta da imensidão de vezes em que troca de tiros foram registradas lá.
Dentro dessa casa morava uma senhora de idade. Ela me lembrava a Conceição de minha infância. Sua casa, durante esse período de guerra, virou alvo, sendo alvejada diariamente pelos disparos dados no confronto. Ficou marcada como local de guerra, com os muros furados e marcados pelos milhares de disparos.
Tudo isso com essa senhora dentro dessa casa. Durante essa época eu cheguei a visitá-la. As marcas dos tiros eram tão profundas que dava pra ver o outro lado da casa através do buraco.
Em algum momento desses dias de confrontos, temendo o pior, sua família foi até o local e retirou essa senhora desta casa. Da casa onde ela criou sua história e sua vida. De onde ela recordava das coisas do passado, assim como eu recordei da Conceição da minha rua de infância.
No fim do ano passado, a casa foi totalmente pintada e os buracos de balas foram preenchidos com massa e, entre as janelas, uma grande placa com a frase mais comum do Alemão durante os últimos anos: Aluga-se.
Mas mesmo assim, como visto na foto, as marcas das cicatrizes de uma guerra não foram totalmente apagadas. Pois elas não conseguem sumir.
Uma cicatriz é tão profunda que não some esteticamente. Ela fere, marca e por alguns momentos chega a doer, só de imaginarmos que ali, um dia, naquele lar, uma história estava sendo marcada pela violência.
E é isso que a violência tem feito nos últimos anos na vida de todos nós, diretamente e indiretamente. Nos marcando e deixando dentro de nós, uma cicatriz dolorosa, que de tão profunda, é incapaz de se esconder com uma mão de tinta.
Marcas...

Fotos e Texto: Betinho Casas Novas



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