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O reencontro dos meninos

  • agenciabcnnewsrio
  • 22 de ago. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 3 de jun. de 2025

Por diversas vezes, eu cobri pautas relacionadas a confrontos em comunidades do Rio. Não foi diferente desta vez...


Saí do Complexo do Alemão, um dos maiores complexos de favelas do mundo, e fui direto à sua coirmã Rocinha — que também compete no critério de maiores do mundo — para ver de perto o que ocorria por lá.


A Rocinha, durante os últimos dias, entrou em destaque em todo o Brasil por conta da onda de violência na comunidade. Mas qual seria o tipo de destaque que revelaria o que realmente está acontecendo na Rocinha?


Nas televisões, jornais e rádios, falava-se apenas dos confrontos armados, do túnel Zuzu Angel (que corta a Zona Sul) fechado, e dos moradores da Zona Sul assustados com os tiros. Somente isso. Foram esses os tipos de destaque que me fizeram sair do Alemão (que também sofria com a violência) em direção à Rocinha.


Mas não fui para constatar o óbvio. Entendo que existem outros aspectos importantíssimos na Rocinha que estavam sendo ocultados.


Saí do Alemão com uma forte apreensão. A mídia, como de costume, vendia a imagem de uma comunidade totalmente perigosa e violenta, devido aos últimos acontecimentos. E por algum momento, de fato, foi assim. No meio do caminho, já imaginava toda aquela cena de horror contada pelos repórteres e seus coletes à prova de balas — mesmo estando todos eles totalmente fora da comunidade.


No entanto, deparei-me com uma tranquilidade assustadora. Mesmo com tudo o que acontecia na comunidade, nada parecia ter mudado. A Rocinha seguia ali, como uma grande máquina de potência.


Lojas abertas e funcionando, uma multidão de pessoas que se esbarravam pelas ruas estreitas e pelos becos, e — não podemos esquecer — aquela imensidão de mototaxistas que, por um momento, me fez lembrar da Índia e seus mais de 80 milhões de motoqueiros, mesmo eu nunca tendo colocado os pés por lá.


Diante da pressão um tanto sensacionalista que a mídia transmitia, resolvi subir a Estrada da Gávea, principal via que corta a Rocinha.


No caminho, pude observar os detalhes e as expressões dos sentimentos de cada morador. Alguns, espantados com o forte aparato militar das Forças Armadas, aparentavam sentir medo. Outros demonstravam receio, alguns esperança — mas sempre com aquele sorriso escondido toda vez que você os encarava. Foi aí que percebi: o problema era o mesmo que eu vivia na minha comunidade.


Resolvi acompanhar um grupo de jovens militares que, pelas expressões dos olhos, pareciam mais assustados do que os próprios moradores. Fui me aproximando devagar para que eu pudesse, mesmo que baixinho, ouvir suas conversas, enquanto apontavam seus fuzis para as lajes e becos por onde passavam.


Um deles disse que nunca tinha colocado os pés na Rocinha e que sempre a admirara, mesmo sem nunca ter estado ali. Talvez ele nunca a tivesse conhecido por também morar em alguma comunidade. Consequentemente, podia haver alguma rivalidade com a Rocinha.


O jovem soldado lamentou pisar na comunidade logo junto de seu fuzil, que apelidara de “Maria”.

Na parte alta da comunidade, onde a beleza do Rio é percebida de camarote, consegui entender — ainda que um pouco — o que dizia a grande mídia.


A Rocinha é um lugar enorme e está localizada bem no meio de boa parte da elite carioca. Mas os destaques que eu procurava não estavam na Zona Sul e suas regalias, e sim no que aqueles moradores poderiam me contar sobre como era viver naquele lugar que, de uma hora para outra, se tornou notícia.


Fiquei por várias horas procurando sobre o que escrever e fotografar.

Não conseguia encontrar o que procurava. Mas o que, de fato, eu procurava?

Acho que nem eu sabia.


Já desanimado, de repente, uma cena marcante surgiu em meio aos becos da comunidade. Três pequenos irmãos viraram uma esquina de mãos dadas e logo pararam, assustados, ao verem aqueles homens armados à sua frente. O grupo, liderado pelo mais velho, de uns seis anos, tinha uma missão: comprar pão. Mas o medo ao verem os soldados os impediu de dar mais um passo.


Peguei minha câmera e comecei a acompanhar de longe aquelas crianças. Ali eu vi o destaque que tanto queria registrar.


Diferente daquele noticiado pela mídia. Aquele soldado que eu acompanhei subindo a Rocinha, sem hesitar, foi até os meninos, pegou na mão do mais velho e os guiou até a porta da padaria. Foi o encontro dos meninos.


Por um momento, parei — e aí fui eu quem se viu travado. Aquela cena ocorreu tão naturalmente, mas, em poucos segundos, disse tanto. Todos na fotografia e nesta história são meninos. Moradores de favelas, com os mesmos sonhos, os mesmos ideais e planos.


Desde aquelas crianças que viveram momentos de terror na comunidade e não foram à escola por conta da operação militar, até o jovem soldado que subia a Rocinha pela primeira vez como um turista entusiasmado, espantado e com medo.


Uns com sacos de pão na mão, e o outro, com um fuzil.


Somos todos iguais, de braços dados ou não…



 
 
 

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