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Não tenho tempo para chorar

  • agenciabcnnewsrio
  • 22 de ago. de 2022
  • 2 min de leitura

Atualizado: 3 de jun. de 2025

A vida segue.

A rotina não espera.


O tempo, na favela, é um recurso escasso – e, talvez, o mais valioso de todos.

Mas por que vivemos sem tempo? Porque não sabemos quanto ainda nos resta.


O tempo, hoje, é o bem mais valioso para uma comunidade.

É acordar bem mais cedo para trabalhar, para não perder um dos poucos ônibus da linha 312, que passam no único ponto na entrada da comunidade.


É não esquecer o horário em que o manobreiro liga a chave e a água começa a cair durante a semana, para poder encher as caixas d’água e garantir mais alguns dias de abastecimento.

É sair de casa um pouco mais cedo para trabalhar, antes daquele horário em que, geralmente, ocorre troca de tiros pela manhã — durante a famosa troca de plantão das bases policiais.

Tempo, tempo, tempo…


A favela vive, a todo momento, atualizando o seu tempo.

A cada ônibus perdido, é preciso sair ainda mais cedo de casa, para conseguir chegar antes do ônibus da linha 312.


Se eu esquecer o horário exato em que a água chega durante a semana, vou precisar colocar mais um alarme no despertador — além daquele da madrugada, que me ajuda a não perder o ônibus.


Mas, se mesmo cansado de tanto tempo gasto na rotina, eu acordar um pouco mais tarde e sair justamente na hora da troca de plantão, posso ser ferido — e, então, deixarei de me preocupar com o tempo.


Não terei mais tempo para abraçar, ser feliz, sorrir, chorar, viver…

Na favela, a vida vira uma constante batalha contra o tempo — que nos obriga a usá-lo ao máximo, antes que fiquemos sem tempo.


Por isso, entre o luto e a dor, a rotina de todos os moradores da comunidade vai retomando seu curso. Sem tempo para sentir dor. Sem tempo para viver o luto. Sem tempo para chorar.

Porque, no fim, não sabemos por quanto tempo ainda teremos… tempo.


Nota: Enterro de Letícia Marinho Sales, 50 anos, assassinada durante uma operação policial no Complexo do Alemão. Seu filho, Marcos Vinicius (na foto abaixo), recorda a mãe como uma mulher generosa, que dedicava seu tempo a todos que precisavam.

Foto: Betinho Casas Novas / Cemitério do Caju


 
 
 

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