Castigo de um anjo caído
- agenciabcnnewsrio
- 22 de ago. de 2022
- 2 min de leitura
Era uma tarde quente de mais uma semana agitada quando passava eu, pela Av. dos Democráticos, via que corta duas das grandes favelas do Rio de Janeiro.
Ao me posicionar na janela do ônibus sentido centro do Rio, observava do lado de fora um aglomerado de moradores em situação de rua, deitados na calçada de um colégio estadual.
Logo me veio à mente tentar descobrir a história de cada uma daquelas pessoas. Saber a linha do tempo que os fez chegar até as ruas ou como é difícil sobreviver aos perigos que a noite oferece, até mesmo os seus sonhos e desejos mais perdidos.
Ao passar das horas, cada vez mais me distanciava daquele local e, por hora, aquela cena desapareceria da minha memória e eu me ocuparia com outros detalhes. Chegando ao meu destino tão atrasado, como sempre, não reparei nada à minha volta e fui logo entrando no prédio da Defensoria Pública da União, onde se defendem as causas e a assistência dos cidadãos brasileiros.
Mesmo assim, longe daquela cena que presenciava mais cedo, me deparava com outros moradores em situação de rua deitados pela calçada daquele enorme prédio. Foi quando parei, analisei e pensei: Não damos a devida importância para todas essas pessoas.
Certa vez, durante uma noite fria, em uma doação de mais de 100 colchonetes para os moradores de rua na zona norte do Rio, junto de um amigo, sentei ao lado de um senhor de idade avançada que, ao receber o colchonete das minhas mãos, me agradeceu com um grande sorriso. Esse senhor me pediu para que eu pudesse contar sobre minha história de vida: o que fazia, onde morava e se eu tinha filhos. Sem pensar duas vezes sentei ao seu lado e comecei a contar. Por um momento, vi os lados sendo invertidos.
Não era ele que estava abandonado, éramos nós que estávamos o abandonando. Após a nossa breve conversa ele finalizou dizendo que todos os moradores de ruas são anjos caídos que foram castigados pela vida dura.
E ele tem razão...
As histórias são as mesmas: as vidas, os trajetos, são todos iguais.
Esse senhor contou sua história de vida de onde ele errou e quais foram as dificuldades que o fez chegar até as ruas. Tudo isso com um sorriso no rosto, motivado, alegre, querendo falar mais, não por fracassar na vida e estar nas ruas, mas, isso por saber que não era ouvido há muito tempo. Aquele homem foi um grande empresário um dia. Mas por problemas financeiros, não resistiu à crise e sucumbiu às ruas. Como muitos em diversas partes do mundo.
A rua é uma grande biblioteca com diversos livros abertos, todas recheadas de sentimentos, trajetórias e histórias esquecidas, abatidas e sem ninguém que queira saber sobre elas. Nós somos aqueles que desviam a direção, quando vemos um desses livros ali, deitado no chão, escrevendo mais um capítulo de uma história longa que parece sem fim.
Agora, quantas histórias esquecidas e ignoradas, temos perdidas pelas ruas do nosso país?
Foto: Betinho Casas Novas | Candelária / Centro do Rio




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